A Caatinga pode virar um deserto

março 7 2010Sem Cometários

Categoria: Meio Ambiente

Afonso CavalcanteO Ministério do Meio Ambiente divulgou pesquisa sobre o desmatamento da caatinga e os dados não são nada animadores. Em 2002 a área desmatada era de 43,38%, chegando a 45,39% em 2008, tendo sido desmatado nesse período 16.576 km2, o equivalente a onze vezes o território da cidade de São Paulo. Entre os municípios que mais desmatam no Nordeste estão Serra Talhada e São José do Belmonte em Pernambuco.

A principal causa do desmatamento da caatinga é o fornecimento de lenha e carvão vegetal para os pólos gesseiro e cerâmico do Nordeste e setor siderúrgico de Minas Gerais e do Espírito Santo. O que nos causa estranheza é o fato de que novas áreas estão sendo desmatadas para produção de matéria prima para o programa de “biocombustíveis”, ou seja, agrocombustíveis do governo federal. É importante dizer que os “biocombustíveis” estão sendo apresentados como uma alternativa para reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Outras causas do problema são atribuídas à demanda de energéticos de origem florestal para indústrias de pequeno e médio porte e para uso residencial. Acrescento a essa lista os desmatamentos realizados para implantação de roçados e áreas de pastejo animal.

Para o Ministro Carlos Minc é preciso mudar a matriz energética hoje concentrada na dependência de lenha e carvão vegetal, para a energia eólica, pequenas centrais hidrelétricas e gás natural. Acredito que é preciso ir além, romper com a agricultura agroindustrial exportadora e investir na mudança de paradigma da agricultura tradicional para a agroecologia com base na convivência com o semi árido. Segundo Carlos Nobre do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas – IPCC da ONU, nosso erro está em pensar que o Nordeste só virará deserto quando aparecerem dunas de areia. Quem trabalha com agricultura sabe que Carlos Nobre está certíssimo, o processo de desertificação se inicia quando o solo perde a sua capacidade produtiva, em grande parte devido à incapacidade para reter água, a dificuldade de regeneração da vegetação nativa e a salinização. Posso afirmar com segurança, que já estamos nesse estágio do processo de desertificação em muitos municípios do Sertão do Pajeú.

Como parte das estratégias para reverter à situação o Ministério do Meio Ambiente pretende investir no Nordeste, R$ 500 milhões oriundos do Pré-Sal para o Fundo Clima. É preciso entender que o combate ao desmatamento e a desertificação implica em criar as condições para que a família possa viver com dignidade no semiárido e possam colaborar com as medidas mitigadoras. Para tanto, é preciso investir em tecnologias capazes de captar e armazenar água “in situ”, como as cisternas de placas, as barragens subterrâneas, as barragens sucessivas e os tanques de pedra. Pena que enquanto os investimentos do governo federal estão suspensos para o Programa 1 Milhão de Cisternas – P1MC, único capaz de resolver o problema da falta de água de beber da população difusa a médio prazo, as obras da transposição das águas do Rio São Francisco estão a todo vapor. É bom lembrar que apenas 5% da água da transposição se destinará ao atendimento da população difusa, sendo que 70% da água atenderá aos interesses do agronegócio ou hidronegócio, na produção de frutas e camarão para exportação, agravando a situação de degradação da caatinga.

Afonso Cavalcanti Engenheiro Florestal CREA 7008D Projeto Dom Helder Camara Projeto GEF/SERTÃO

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